sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A capital do atraso?

Demorei muito tempo para arranjar um assunto para o primeiro post. Eis que ontem me surge uma idéia que achei interessante.

Domingo passado teve uma consulta popular sobre a construção de residências na área que hoje são as ruínas de um estaleiro falido nos anos 80, na beira do Guaíba. A simples construção de prédios na orla, residenciais ou não, desperta feroz oposição entre a intelligentsia local, que repetia a exaustão o bordão "estão privatizando o pôr do sol!!" entre outras bobagens. Bobagens, pois os que se opõem ao projeto não querem que nada seja construído na área, querem que a orla do Guaíba continue como está: inutilizada, entregue às macegas, ao lixo e aos vagabundos, querem que a cidade continue com suas costas viradas para o estuário.

O resultado da consulta? 80% votou por não construir residências no local, num processo onde menos de 2% dos eleitores do município votaram. A consulta em si não muda muita coisa, prédios comerciais continuam liberados, mas é factível prever que a pressão para que nada seja construído comece a aumentar.

A mesma turma que é contrária ao Pontal do Estaleiro também é contra a modernização do cais do porto, querendo que aqueles armazéns continuem criando ratos. Engraçado é que o Arroio Dilúvio despejando esgoto e lixo no Guaíba não desperta nenhuma mobilização por parte dos defensores do "nosso rio", sem falar no fato de que quase toda a orla está imprópria para banho. Ou seja, despejar merda no Guaíba pode, construir meia dúzia de prédios numa área degradada e valorizá-la, não pode. A vereadora Sofia Cavedon, do PT, saiu dizendo que a vitória do “não” representava a vontade do povo de mudar o plano diretor e impedir prédios na orla. Gostaria de saber o que a vereadora, que considera o Guaíba o “nosso maior patrimônio”, fez para reduzir a poluição do mesmo.

Essa gritaria contra investimentos não é nova por aqui. Basta ver o que aconteceu com o ex-governador Antônio Britto, responsável por trazer duas montadoras ao RS, que até então nunca havia produzido automóveis. Uma delas, a Ford, foi expulsa do estado pelo então governador Olívio Dutra em 1999, a outra, a GM, só foi salva do mesmo destino por estar em fase mais avançada de implantação. Hoje todos tecem elogios a participação da GM no crescimento de Gravataí, mas nenhuma palavra de reconhecimento ao Britto, responsável pela instalação da empresa. A mesma grita se repete hoje contra a Aracruz e outras indústrias de celulose, a simples idéia de alguém investir na cada vez mais pobre metade sul do estado já causa calafrios na nossa intelligentsia, talvez por medo de cair por terra a falácia contra o latifúndio.

Nada justifica toda essa celeuma do que o gosto pelo retrocesso por parte da elite (nem um pouco) pensante da província. Começo a temer que isso esteja se incorporando a figura típica do gaúcho, que ficaria estigmatizado como um sujeito que gosta de atraso, exageradamente apegado ao passado, como que sonhando com a volta das charqueadas. Ironicamente, isso é associado ao tradicionalismo e a um suposto conservadorismo. Por outro lado, isso é acompanhado por um certo sentimento de empáfia, de que tudo está perfeito e que qualquer mudança iria macular o “paradisíaco” cenário da orla, do cais do porto ou do que quer que seja. Por isso tenho minhas dúvidas se o metrô prometido para a Copa do Mundo saia do papel, afinal o povo “adora” andar de ônibus e não há necessidade de metrô numa cidade que tem o “melhor transporte público do país” (me engana que eu gosto).

Finalizando, o RS se tornou para mim o estado mais esquerdista do país. Não é a toa que o PT governou Porto Alegre por 16 anos e o o Rio Grande foi o primeiro estado importante a ser governado pelos petralhas. Mesmo não detendo os estes cargos atualmente, o petismo ainda é a ideologia dominante por aqui, basta ver os sistemáticos ataques a governadora Yeda, que resolveu mexer em temas que feriam as sensibilidades dos aparatchicks (nem sei direito como se escreve) do pampa. Não é para menos que toda essa mentalidade está fazendo com que o estado perca espaço no cenário econômico do país e Porto Alegre tenha um turismo de lazer quase inexistente. Um amigo com o qual converso no MSN diz que tudo começou com o positivismo castilhista, passando por Borges, Getúlio, Jango e Brizola até desembocar no petismo. Pretendo estudar mais a fundo sobre essas origens do pensamento retrógrado da burritsia da província mais adiante. Enquanto isso, minha vontade de sair da Ptlândia (vulgo RS) aumenta ainda mais.

Um comentário:

Marcos Boldrini disse...

Belo post, Vicente!

Concordo com quase tudo, à exceção de que falta um detalhe no texto: o Estado do RS pode ser o mais esquerdista, mas também tem um bom grupo conservador e mais organizado no interior. O problema é esse encampamento que a esquerda fez em associar o PT ao tradicionalismo gaúcho, usando a tradição para frear o progresso de índole capitalista.